Nunca fui o rapaz corriqueiro que todos esperavam. A minha ciência sempre foi o pensamento. O meu chão, as emoções. O meu abrigo, a solidão. Incompreendido e afetuoso - o amor é a minha casa. Serei sempre assim, étereo, eterno, infinito. À procura de um futuro não-presente.
Estou com uma imensa vontade. Imensa? Sim, imensa. Mas imensa vontade? Não seria vontade imensa? Não. Estou com uma imensa vontade. Vontade da tua imensidão. Da imensidão do teu olhar, da tua voz, do teu beijo. O meu coração anda imenso. De saudades. De amor. De frustração.
Precisava de estar de frente do meu mar. Sentir a sua brisa na minha cara, sentar-me na areia, fechar os olhos e ouvir o som das ondas. Mas hoje faço-o em Lisboa, à frente do rio, de braços dados com a ponte e de costas para toda a história gravada em tijolos ou pedras de edifícios. O sol bate-me na cara, as pessoas à minha volta entretêm-se a falar das banalidades do dia a dia do cidadão comum. Atrás de mim corre um vento forte, e com ele, aparecem agora mesmo, meia dúzia de nuvens cinzentas e muito, muito carregadas. Eu permaneço sentado. Com frio, agora. Mas sentado. E tudo o que está a acontecer na minha vida corre com o vento. E eu permaneço sentado. A minha mente vazia, o meu coração cheio. Eu amo as minhas pessoas. Por miúdos, realmente, quantas pessoas tenho eu? O homem que está sentado atrás de mim a fumar o seu cigarro? O casal que troca sorrisos ao meu lado direito? Ou aquele turista boquiaberto com a paisagem lisboeta? Quantos é que se realmente importam com o miúdo sentado, sozinho, a escrever virado para o rio? Sei de pessoas que se importam comigo. A eles dava a minha vida, se fosse preciso. Parei de escrever e olhei para a minha volta, o ambiente é o mesmo, nada mudou. E é assim que eu sei, o problema não é a minha mente, mas o meu coração. Pequeno, triste e sozinho. O frio não ajuda, e tudo o que me apetece agora é lançá-lo ao rio. Não o frio, porque até gosto dele. Mas o meu coração.
Hoje em dia vivemos na ilusão de ter a nossa própria identidade. Na ilusão, de facto. Pensamos ser donos de nós próprios, quando na realidade somos a imagem do que querem que sejamos. Ainda há pessoas que acreditam em livre-arbítrio, como se tudo o que fazemos não fosse condicionado pelo que ouvimos ou vemos. Vivemos no mundo da conspiração, e como tal, somos objetos dos senhores do poder, somos peões num grande jogo a que se chama de vida. Para eles o que importa é ganhar, e se para ganharem tiverem de passar por cima dos outros, destruir planos e objetivos de vida, que o seja. Os interesses apoderaram-se do mundo, das pessoas, de nós. Quantas vezes ouvimos alguém a dizer: "Sou livre e não tenho medos de ser quem sou!", de peito aberto e em voz alta? Isto entristece-me. Entristece-me pensar que cresci, e vou crescer num mundo onde as pessoas não são livres de serem quem verdadeiramente são, por causa dos paradoxos da sociedade. Mas além de triste, fico chocado com a conformidade das pessoas. Conformam-se com estas regras estabelecidas por agnosia, tomam como garantido o seu lugar no mundo. E pouco a pouco, somos transformados em robôs, em seres que nascem, que se formam, que trabalham e pagam impostos, que vivem uma vida árdua e trabalhadora para sustentar os luxos dos outros, que envelhecem e morrem. E depois de mortos? Os nossos ossos no caixão deixam alguma história para contar? Pergunto-me, qual é o propósito da vida? Ser escravo dos nossos próprios desejos? Eu não tenho medo da diferença, e espero. Espero um dia encontrar o meu lugar no mundo.
Sou muito novo para pensar no futuro, mas recuso-me a viver assim. Cada vez estou mais certo, o resto dos meus dias será passado algures numa ilha deserta. Sem leis. Sem estereótipos. Sem ninguém a dizer-me o que fazer, quando fazer e como fazer. Serei apenas eu à frente do meu mar, de mãos dadas com a pessoa que amo.
tivemos mais uma daquelas nossas noites, daquelas em que és capaz de sugar todo o meu fôlego em um beijo. acordei e estavas a dormir tão bem, o teu corpo estava disposto em forma de incógnita. desconhecido a ser explorado, algum enigma impossível de decifrar, obra de algum mestre do disfarce. e por ali fiquei a observar-te, a passar os meus dedos pelas partes do teu corpo, na tentativa de libertar a minha alma. a roupa estava no chão, da mesma forma que a atiraste. gosto tanto desses teus impulsos, em que fazes sem pensar, apenas consoante o que sentes. vesti-me e fui espairecer. era de madrugada ainda, a rua estava deserta e lá no fundo já se via um pouco de luz, era o mundo a dizer-me bom-dia. estava um vento fresco de outono, e algo fez-me correr. corri contra o vento com o sol já na minha cara. e enquanto corria, pequenas recordações da nossa noite surgiam na minha cabeça. corri consoante a intensidade em que vivemos, segundo a música que tocava nas nossas cabeças, aquela produzida pela mestre do seu corpo. seduzes-me como um maestro seduz a sua plateia, com a mesma intensidade e com a mesma determinação - mas o teu objectivo são os aplausos. cheguei a casa e corri para os teus braços, mas ninguém estava lá. a casa estava deixada ao tempo, a tua parte da cama estava feita e não havia roupa no chão. sentei-me na cama e cheirei a almofada, que não tinha o teu cheiro. agradeci à plateia, fechei as cortinas e não recebi aplausos. sou eu o mestre da ilusão. podes não estar presente, mas o meu coração insiste em trazer-te de volta à minha cabeça. troquei os lençóis e fui à minha vida. amanhã volto a sair na esperança de quando voltar estares ali à minha espera.
é como se estivesse num sonho. o céu está tão próximo, o sol luzente a as nuvens são cirrocumulus. parecem feitas de algodão-doce, é como se pudesse tocá-las. estou sobre os montes, pintados de verde. estou a admirar o mundo. debruço-me sobre o céu, que beija o mar no horizonte. sinto uma sensação de infinito. é como se o fim e o inicio fossem um só. como se toda a vida, todo o significado deste mundo se resumisse a um só lugar. acho que encontrei o meu lugar no mundo. encontrei-me no horizonte. agora estou aqui, a viver a minha vida. mas grande parte de mim ficou no horizonte, à espera. do quê? de nada, de tudo. de que esteja pronto. para a vida, para o mundo. para ser quem sou.